Quase toda a gente começa o aquarismo da mesma maneira. Compra o aquário, o filtro e os peixes no mesmo dia, monta tudo, liga o filtro e mete os peixes lá dentro. Poucos dias depois a água está turva, os peixes estão ofegantes no fundo e alguns já morreram.
A culpa não é dos peixes nem da loja. É de um passo que foi saltado: a ciclagem. Esta é, sem exagero, a coisa mais importante que um aquarista iniciante tem de aprender. E é simples quando se percebe o porquê.
O que é a ciclagem e porque é que ela importa
Um aquário é um ecossistema fechado. Os peixes comem, libertam resíduos, e sobra comida no fundo. Tudo isso se decompõe e produz amónia, que é altamente tóxica. Num lago ou num rio a natureza trata disto. Num aquário acabado de montar não há nada que o faça.
A ciclagem é o processo de povoar o filtro com bactérias benéficas que transformam essa amónia em substâncias menos perigosas. É o chamado ciclo do azoto, e funciona em cadeia:
Amónia → Nitritos → Nitratos
A amónia mata. Os nitritos também são tóxicos. Os nitratos já são bastante menos perigosos e removem-se com as trocas de água. Quando o aquário consegue fazer esta cadeia toda sozinho, dizemos que está ciclado e pronto para receber peixes.
Quanto tempo demora
Em média, entre três e seis semanas. Não há um número exato porque cada aquário reage à sua maneira. Tenha paciência. Um aquário mal ciclado é um aquário que vai dar problemas durante meses.
Antes de começar
O aquário tem de estar completo e a funcionar:
– Cheio de água tratada com anticloro
– Filtro a trabalhar 24 horas por dia, sem desligar
– Aquecedor ligado (as bactérias multiplicam-se mais depressa em água quente)
– Substrato e decoração já colocados
Importante: se usar condicionador de água, escolha apenas os que removem cloro e cloramina. O cloro mata exatamente as bactérias que queremos criar.
Método 1: ciclagem sem peixes (o recomendado)
É o método mais seguro porque não sacrifica nenhum peixe. Precisa de uma fonte de amónia e de testes de amónia, nitritos e nitratos.
1. Monte o aquário e ligue o filtro
2. Adicione uma fonte de amónia. Pode ser amoníaco puro (sem perfumes nem aditivos) ou um pouco de ração a decompor-se
3. Teste a amónia ao longo dos dias. Vai subir
4. A certa altura a amónia começa a descer e os nitritos sobem. Isto é bom sinal, significa que as primeiras bactérias já estão a trabalhar
5. Depois os nitritos descem e os nitratos sobem
6. Quando a amónia e os nitritos chegarem a zero e só houver nitratos, o aquário está ciclado
Método 2: ciclagem com bactérias de arranque
Quem não quer esperar tanto pode usar um acelerador biológico. São produtos que introduzem as bactérias já prontas, em vez de esperar que apareçam sozinhas. Reduz bastante o tempo de ciclagem. Mesmo assim, continue a testar a água antes de meter os peixes.
Erros que estragam a ciclagem
– Lavar o filtro com água da torneira. O cloro mata as bactérias todas. Se precisar de limpar o filtro, use a própria água do aquário.
– Trocar muita água durante o processo. Remove a amónia que alimenta as bactérias e atrasa tudo.
– Meter os peixes cedo demais. A ansiedade é o maior inimigo. Se a amónia ou os nitritos ainda não estiverem a zero, não introduza peixes.
Quando finalmente meter os peixes
Com a ciclagem completa, faça uma troca de cerca de 30% da água para baixar os nitratos. Introduza poucos peixes de cada vez, nunca todos de uma vez, para não sobrecarregar o filtro. E faça sempre a aclimatação: deixe o saco com o peixe a boiar na água do aquário durante 15 a 20 minutos e vá juntando aos poucos a água do aquário ao saco antes de soltar o peixe.
Depois disto, o difícil já passou. Falta só a manutenção semanal e escolher os peixes certos.
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